Centenário Manoel de Barros

MACP/UFMT, 2017

Para encontrar o azul eu uso pássaros

- Tributo ao Centenário de Manoel de Barros -

 

Ruth Albernaz-Silveira[1]

Imara Pizzato Quadros[2]

José Serafim Bertoloto[3]

Gervane de Paula[4]

 

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom.

Vou pertencer você para uma árvore. E pertenceu-me.

Escuto o perfume dos rios.

Sei que a voz das águas tem sotaque azul.

Sei botar cílio nos silêncios.

Para encontrar o azul eu uso pássaros.

Só não desejo cair em sensatez. Não quero a boa razão das coisas.

Quero o feitiço das palavras.

(Manoel de Barros[5])

 

Manoel de Barros é um dos grandes nomes da poesia mato-grossense. É a partir desse legado que temos a honra e o dever de oferecer uma homenagem em seu centenário. O poeta é cuiabano e possui raízes em Nossa Senhora do Livramento-MT. Ele revelou:

 

O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus envolvimentos com a vida. Sou filho e neto de bugres, andarejos e portugueses melancólicos. Minha infância levei com árvores e bichos do chão. Penso que a leitura e a frequentação das artes desabrocha a imaginação para um mundo mais puro. Acho que uma inocência infantil nas palavras é salutar diante do mundo tão tecnocrata e impuro. Acho mais pura a palavra do poeta que é sempre inocente e pobre[6].

 

A concepção deste trabalho se desenha com a realização de uma exposição coletiva intitulada “Para encontrar o azul eu uso pássaros”, a partir da perspectiva de 28 artistas convidados a produzirem obras inspiradas em poemas de Manoel de Barros. As linguagens escolhidas para compor o conjunto dialógico da exposição foram: pintura sobre papel, pintura sobre tela, escultura, instalação, fotografia, xilogravura, videoinstalação, intervenção, música e poesia.  Os artistas convidados são: Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Cristina Campos, Dalva de Barros, Eduardo Mahon, Gervane de Paula, Gonçalo Arruda, Helder Faria, Ivens Scaff, Lúcia Picanço, Lucinda Persona,  Luiz Carlos Ribeiro,  Marcelo Velasco, Márcia Bomfim, Márcio Aurélio, Marília Beatriz, Nilson Pimenta, Otília Teófilo, Reinaldo Mota, Rodolfo Carli,  Rogério Andrade, Rosylene Pinto, Ruth Albernaaz, Valques Rodrigues, Vitória Basaia,  Wander Mello, Zeilton Mattos; e outros participantes no período expositivo, com saraus e oficinas.

Com essa exposição, vislumbramos: celebrar o centenário do poeta Manoel de Barros; fortalecer a cultura mato-grossense; aproximar o público apreciador de uma visão integrada que associa as artes visuais com a poesia; fomentar o tema de forma transversal (pluralidade cultural, ambiente e temas locais) no ensino de Arte, Literatura e História de Mato Grosso em instituições de ensino, inclusive na Universidade Federal de Mato Grosso; propiciar o encontro de um coletivo de artistas para criar e difundir a poesia de Manoel de Barros.

A exposição “Para encontrar o azul eu uso pássaros” oportuniza ao público apreciador um contato singular com a obra de Manoel de Barros e com este coletivo expressivo de artistas do nosso Estado, desde os já consagrados até os jovens em formação.

Desejamos a todos uma boa apreciação!

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[1] Doutora em Biodiversidade, pesquisadora em Cultura e Etnoecologia, artista visual e curadora da exposição.

[2] Doutora em Educação, curadora, docente e pesquisadora em Arte.

[3] Professor Doutor em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, crítico e curador de Arte.

[4] Artista visual e curador da exposição.

[5] BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa. In: _____. Manoel de Barros. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 369-370).

[6] BARROS, Manoel de. O poeta. Disponível em: <http://www.fmb.org.br/>. Acesso em: 20 jul. 2016.