Patuá

Sesc Casa do Artesão, 2016

Patuá como Arte do Habitat

por Ruth Albernaz

Escolhi a palavra-alma “Patuá” por se tratar de um assunto que é fonte e substrato desta mostra que apresenta obras inéditas baseadas em pesquisas e experimentações que me envolvo desde 1996, no campo da Etnoecologia. São transportadas para o fazer artístico expressas em suportes, variados que se misturam à elementos coletados dentro da força Xamânica, agregados com fragmentos de poesias, invocações e rezas. Aqui há um intenso processo de construção com a intencionalidade de conectar o universal/local e espiritual/material no que tange o plano dos sentidos. Trago símbolos/signos e uma imagética da visão sincrética brasileira para a construção de uma ambiência estética presentificados em detalhes subjetivos nas composições, sem estereótipos prontamente identificáveis. Os “Patuás”, talismãs e amuletos são objetos considerados mágicos/sagrados usados em entradas de casas, atrás das portas como orações e/ou usados junto ao corpo como uma segunda pele com símbolos relacionados à crença do dono. Os mais comuns são escapulários, medalhas de Santo como São Jorge e Nossa Senhora, Cruz, Flor de Liz, Buda e Om. Na cultura popular cabocla, os Patuás de área externa das casas são compostos por um sistema simbólico com plantas mágicas que sinalizam o sincretismo religioso brasileiro, como: Guiné, Espada de São Jorge, Lança de Ogum, Comigo Ninguém Pode, Pimenteira, Jurema, Quebra de Demanda, Bambu e outras etnoespécies com atribuição mágica e rochas como Cristais de Quartzo ou alguma com formato específico. Os patuás de entrada de casa dispostos na parte interna, geralmente ficam atrás da porta, são: orações como prece de Cáritas, imagens de Santos (São Bento, São Marcos, Arcanjo Miguel) ou a ave que simboliza o Divino Espírito Santo; espadas; anjos e arcanjos ou até mesmo ferraduras, trevos e olhos gregos. Há algumas materialidades que os xamãs, pajés, feiticeiros e benzedores guardam para o ofício da cura que podem ser consideradas como patuás, por acreditarem que ancoram poderes de proteção e cura. Na cultura do povo indígena Amazônida Rikbaktsa, o qual convivo e realizo uma pesquisa [doutorado em Biodiversidade Amazônica], o Tsanipê é a bolsa mágica do pajé e dos guerreiros mais experientes, onde guardam seus objetos de poder como: penas de Gavião Real, colares, plantas medicinais, dentes de onça, fungos [orelhas de pau] e outros itens que consideram sagrados. O Tsanipê é feito da fibra de uma planta rara que ocorre nas margens do Rio Juruena e seus afluentes, “uma árvore que olha para as águas...” O Tsanipê tem formato de casulo, parece uma Crisálida, me inspirou profundamente na construção de alguns patuás que remetem a energia de proteção, do guardião de elementos sagrados e ao mesmo tempo me transportou para os casulos de borboletas que ensinam sobre a transformação/transmutação. Nesse cenário cultural, esta exposição se apresenta de fundamental importância, pois busca refletir sobre a diversidade étnica, em especial a de Mato Grosso, que bebe na fonte do popular, do nativo e traz uma linguagem completamente contemporânea.

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